quarta-feira, 24 de abril de 2013

Aula de 24/04/2013



Gramática da notícia

            Lage escreveu que “do ponto de vista da estrutura, a notícia se define, no jornalismo moderno, como o relato de uma série de fatos a partir do fato mais importante ou interessante; e de cada fato, a partir do aspecto mais importante ou interessante. Essa definição pode ser considerada por uma série de aspectos. Em primeiro lugar, indica que não se trata exatamente de narrar os acontecimentos, mas de expô-los.”
Assim, cada gênero será apresentado de acordo com o gênero: literário, jornalístico etc. Seu relato não necessariamente deverá seguir a ordem cronológica, mas sim na ordem de importância das informações.
Em um acidente de ônibus, por exemplo, não necessariamente se seguirá a ordem cronológica: o ônibus saiu da rua, subindo a calçada atropelando quatro pessoas, ferindo a primeira, matando a segunda e ferindo as outras duas. Pela importância, a notícia começará com o ônibus matou uma pessoa e feriu outras três ao subir a calçada.  
Ou mesmo, dependendo da publicação, poderá iniciar com um “Nariz de cera”: “Era um final de tarde, o sol se escondia avermelhando o céu, enquanto um  grupo de trabalhadores, no ponto de ônibus, esperava por sua condução para levá-los de volta para casa, onde iram descansar seus corpos depois de um dia de trabalho árduo”.

Noção intuitiva de notícia

Se considerarmos a tradição oral, a mais antiga e mais corrente, veremos que a ordenação dos eventos por ordem decrescente de importância ou interesse é bem mais comum do que a temporalidade da seqüência.        
Os eventos serão ordenados não por sua seqüência temporal, mas pelo interesse ou importância decrescente, na perspectiva de quem conta e, sobretudo, na suposta perspectiva de quem ouve. Assim, o público alvo também definirá a forma a ser adotada pela redação da notícia.
Algumas restrições devem ser levadas em conta. Segundo Lage, “a analogia da notícia jornalística com a situação de uma pessoa que informa algo a outra não pode ser levada além de certo ponto. As circunstâncias da relação entre o jornalista e o público ´a pragmática dessa relação – determinam restrições específicas no código lingüístico.
A limitação do código – reduzindo tanto o número de itens léxicos (palavras e expressões) quanto de operadores (regras gramaticais) de uso corrente – aumenta a comunicabilidade e facilita a produção de mensagem, o que é útil no caso de um produto industrial como a notícia. A fundamentação teórica desta proposição encontra-se na Teoria da Informação, mas ela se confirma em grande número de situações práticas. É o que leva à padronização das vozes de comando e permite a locutores radiofônicos descreverem com incrível rapidez os lances de um jogo.”
É importante ressaltar que por trás das notícias existe uma trama infinita de relações dialéticas e percursos subjetivos que elas, por definição, não incluem.
Lage escreve que “as restrições mais gerais do jornalismo noticioso referem-se à linguagem jornalística, sobretudo quando impõe o uso de vocabulário e gramática tão coloquiais quanto possível nos limites do que se considera socialmente correto e adequado à abrangência do veículo. Normas de redação adicionais impedem o uso estilístico (intencionalmente significativo) de notações como as virgulas; suprimem pontos de exclamação, reticências etc.
“o redator de uma notícia não é conhecido de quem a irá consumir; mesmo quando assina seu texto, o que é raro, o nome significará pouco ou nada para quem lê ou ouve o noticiário. E o redator pode ter, no máximo, idéia estatística muito geral do conjunto dos receptores da mensagem. Nesse contexto, será inadequado dizer ‘eu vi’, como um personagem que encontrou um cadáver ao abrir a porta de casa: ‘eu” passa a não fazer sentido. Nem cabe dirigir-se ao consumidor  da informação como ‘vocês’ ou ‘os senhores’: esta forma de tratamento pressupõe outro tipo de relação com o público.
“O uso da terceira pessoa é obrigatório, a tal ponto que, modernamente, o jornal, emissora ou agência, quando envolvido no acontecimento que está expondo, cham,a a si próprio pelo nome’.
Por definição, a retórica da notícia é referencial. Assim, podemos dizer que comove, motiva a revolta ou o conformismo, agride ou gratifica etc. Como os repórteres podem se descuidar nesses aspectos, os veículos jornalísticos criaram um mecanismo de poder que é o gatekeeper, aquele que decide o que vai ser publicado e como.
Vale ressaltar que todo fato é neutro. O que tira a neutralidade e a formação de cada um: jornalista ou receptor.
Um ponto importante é a respeito da veracidade de uma informação. Do ponto de vista técnico, Lage diz que “a notícia não é avaliada por seu conteúdo moral, ético ou político; o que importa é se de fato aconteceu aquilo ou, no caso de ua entrevista, se o entrevistado disse realmente aquilo. Se bem que os jornalistas não estejam imunes (ninguém está) às contingências históricas, aos compromissos culturais ou de classe, não há, em tese, notícias reacionárias ou progressistas, edificantes ou indecentes.”
Para receptores, existem formas de informação para que acreditem ser verdadeira. Assim, não se deve escrever alguns manifestantes mas, sempre que possível, o número exato: 10, 12 ou 20. Não de diz que uma cidade fica próxima a outra, mas a que distância fica, ou o tempo que leva para percorrer a distância. Pelo mesmo motivo, devemos usar termos comparativos. Por exemplo: o que é um prédio alto ? O que é uma área grande ? Quando falarmos da capacidade de uma usina hidrelétrica, devemos dizer quantas casas ela tem capacidade de fornecer energia.

Lead

            O lead é o primeiro parágrafo da notícia em jornalismo impresso, embora possa haver outros leads em seu corpo. Corresponde à primeira proposição de uma notícia radiofônica, ao texto lido pelo apresentador ou à cabeça do repórter no início de uma notícia em televisão.
            O  lead é o relato do fato principal de uma série, o que é mais importante ou mais interessante.  Em sua forma clássica, e impressa, é uma proposição completa no sentido aristotélico, segundo Lage; ou seja, contém:

            a) o sujeito, um sintagma nominal que pode conter um substantivo, acompanhado ou não de artigo, adjetivo, locução adjetiva, oração adjetiva; ou ainda uma locução substantiva, uma oração integrante;
            b) o predicado, ou seja, o sintagma verbal, acompanhado ou não de seu complemento, um objeto direto, ou indireto;
            c) as circunstâncias, ou sintagmas circunstanciais de tempo, lugar, modo/ instrumento, causa/consequência.

            No parágrafo seguinte, ou seguintes, ao lead escreve-se os detalhes e acrescenta-se informações acerca da ação verbal em si, os sintagmas nominais, os circunstanciais ou quaisquer de seus componentes é chamado de documentação.
            O lead informa quem fez o que, a quem, quando, onde, como, por que e para quê. A documentação consiste em proposições adicionais sobre cada um desses termos.

Restrições verbais no lead

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