RIO - Em artigo distribuído
pelo jornal americano “The New York Times” e publicado na sua versão on-line
nesta terça-feira, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva explicou, segundo
o seu ponto de vista, os motivos pelos quais milhões de brasileiros foram às
ruas no mês junho. Para o petista, a onda de protestos só ocorreu por causa do
“sucesso econômico, político e social” de seu governo. A análise sustenta que
os jovens “querem mais”, pois viveram um momento de bonança econômica e pleno
emprego. Em nenhum momento Lula cita as palavras de ordem contra a corrupção ou
contra o dinheiro público gasto em estádios para a Copa do Mundo. Para Lula, os
jovens querem participar da política. No texto, ele apoia a ideia de um
plebiscito para a reforma política apresentada pela presidente Dilma Rousseff e
defende uma reformulação do próprio PT, com a abertura de canais de comunicação
para a juventude.
“Mesmo o Partidos dos Trabalhadores, que eu ajudei a fundar, e que contribuiu
muito para modernizar e democratizar a política no Brasil, precisa de uma
profunda renovação. É preciso recuperar suas ligações diárias com os movimentos
sociais e oferecer novas soluções para novos problemas, e fazer as duas coisas
sem tratar os jovens de forma paternalista”, diz ele, em artigo escrito em
inglês.
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O ex-presidente sustenta que os jovens não rejeitam a política:
“Muitos especialistas atribuem os recentes protestos a uma rejeição da
política. Eu penso ser justamente o contrário (...) Eu só posso falar com
autoridade sobre o meu país, o Brasil, onde eu acho que as manifestações são em
grande parte o resultado do sucesso social, econômico e político. Na última
década, o Brasil dobrou o número de estudantes universitários, muitos de origem
pobre. Nós reduzimos a pobreza e a desigualdade. Estas são conquistas
importantes. No entanto, é natural que os jovens, especialmente aqueles que têm
coisas que seus pais nunca tiveram, desejem mais”, diz Lula logo no início do
artigo. No fim do mês passado, Lula adotou o mesmo discurso e afirmou, na
Etiópia, que “feliz é o povo que vai às ruas querendo mais”.
O ex-presidente afirma que a maioria das pessoas que estavam nas ruas não
presenciou momentos como a hiperinflação ou a repressão da ditadura militar.
Eles também “lembram muito pouco sobre os anos 1990, quando a estagnação e o
desemprego afetaram nosso país”, diz Lula. O petista diz que, agora, os
brasileiros querem transporte público com mais qualidade, para que “a vida nas
grandes cidades seja menos difícil”.
Lula diz que é necessária uma reforma política.
“Eles (os jovens) exigem instituições políticas mais limpas e transparentes,
sem as distorções políticas e eleitorais (...) A legitimidade dessas demandas
não pode ser negada, mesmo que seja impossível contemplá-las rapidamente”.
Lula ressalta ainda que as manifestações só podem ser feitas em uma democracia.
Regime este que possibilita a eleição, para presidente, de “um índio”, como na
Bolívia (Evo Morales), ou de um “negro”, como no Estados Unidos (Barack Obama),
ou de um “metalúrgico”, como no Brasil (ele próprio).
Lula defende uma participação mais direta do cidadão nas questões políticas do
país.
“As pessoas não querem apenas votar de quatro em quatro anos. Elas querem
interagir com os governos locais e nacionais, e tomar parte das decisões de
políticas públicas, oferecendo opiniões e decisões que os afetem todos os
dias”.
O ex-presidente diz que a vontade dos jovens impõe “um grande desafio aos
líderes políticos”. Segundo ele, é preciso construir meios mais eficientes de
participação, seja nas redes sociais, nos locais de trabalho, nas universidades
e ou em grupos de comunidades locais.
“É dito com frequência, e com razão, que enquanto a sociedade vive na era
digital, a política vive na era analógica”, diz Lula.
Ele ainda elogia Dilma:
“A outra boa notícia (além da participação dos jovens na política) é que a
presidente Dilma Rousseff propôs um plebiscito para realizar a tão necessária
reforma política. Ela também propôs um pacto para a educação, saúde e transporte
público (...)”.
Em contraste com a declaração de Lula sobre os rumos do PT, ontem, o presidente
do partido, Rui Falcão, em entrevista ao programa da TV Cultura, Roda Viva,
disse que não está preocupado com a baixa participação de petistas nas ruas.
— O PT nunca saiu das ruas. Com o nível de emprego hoje, as pessoas estão
trabalhando. Dificilmente teremos movimentos de massa semelhantes à década de
70. Houve muitos avanços nesses período e é este o legado que vamos estar
afirmando nas eleições de 2014 — disse.
Nesta terça-feira durante almoço com os escritores Lira Neto e Fernando Morais,
o ex-presidente Lula brincou com o fato de circularem na internet, durante a
última semana, boatos sobre seu estado de saúde.
— Você sabe que para muita gente estou internado neste momento, não estou aqui
conversando com vocês — brincou o ex-presidente.