Gramática da notícia
Lage escreveu que “do ponto de vista
da estrutura, a notícia se define, no jornalismo moderno, como o relato de uma
série de fatos a partir do fato mais importante ou interessante; e de cada fato,
a partir do aspecto mais importante ou interessante. Essa definição pode ser
considerada por uma série de aspectos. Em primeiro lugar, indica que não se
trata exatamente de narrar os acontecimentos, mas de expô-los.”
Assim, cada gênero será apresentado de acordo com o gênero:
literário, jornalístico etc. Seu relato não necessariamente deverá seguir a
ordem cronológica, mas sim na ordem de importância das informações.
Em um acidente de ônibus, por exemplo, não necessariamente
se seguirá a ordem cronológica: o ônibus saiu da rua, subindo a calçada
atropelando quatro pessoas, ferindo a primeira, matando a segunda e ferindo as
outras duas. Pela importância, a notícia começará com o ônibus matou uma pessoa
e feriu outras três ao subir a calçada.
Ou mesmo, dependendo da publicação, poderá iniciar com um
“Nariz de cera”: “Era um final de tarde, o sol se escondia avermelhando o céu,
enquanto um grupo de trabalhadores, no
ponto de ônibus, esperava por sua condução para levá-los de volta para casa,
onde iram descansar seus corpos depois de um dia de trabalho árduo”.
Noção
intuitiva de notícia
Se considerarmos a tradição oral, a mais antiga e mais
corrente, veremos que a ordenação dos eventos por ordem decrescente de
importância ou interesse é bem mais comum do que a temporalidade da seqüência.
Os eventos serão ordenados não por sua seqüência temporal,
mas pelo interesse ou importância decrescente, na perspectiva de quem conta e,
sobretudo, na suposta perspectiva de quem ouve. Assim, o público alvo também
definirá a forma a ser adotada pela redação da notícia.
Algumas restrições devem ser levadas em conta. Segundo
Lage, “a analogia da notícia jornalística com a situação de uma pessoa que
informa algo a outra não pode ser levada além de certo ponto. As circunstâncias
da relação entre o jornalista e o público ´a pragmática dessa relação –
determinam restrições específicas no código lingüístico.
A limitação do código – reduzindo tanto o número de itens
léxicos (palavras e expressões) quanto de operadores (regras gramaticais) de
uso corrente – aumenta a comunicabilidade e facilita a produção de mensagem, o
que é útil no caso de um produto industrial como a notícia. A fundamentação
teórica desta proposição encontra-se na Teoria da Informação, mas ela se
confirma em grande número de situações práticas. É o que leva à padronização
das vozes de comando e permite a locutores radiofônicos descreverem com
incrível rapidez os lances de um jogo.”
É importante ressaltar que por trás das notícias existe uma
trama infinita de relações dialéticas e percursos subjetivos que elas, por
definição, não incluem.
Lage escreve que “as restrições mais gerais do jornalismo
noticioso referem-se à linguagem jornalística, sobretudo quando impõe o uso de
vocabulário e gramática tão coloquiais quanto possível nos limites do que se
considera socialmente correto e adequado à abrangência do veículo. Normas de
redação adicionais impedem o uso estilístico (intencionalmente significativo)
de notações como as virgulas; suprimem pontos de exclamação, reticências etc.
“o redator de uma notícia não é conhecido de quem a irá
consumir; mesmo quando assina seu texto, o que é raro, o nome significará pouco
ou nada para quem lê ou ouve o noticiário. E o redator pode ter, no máximo,
idéia estatística muito geral do conjunto dos receptores da mensagem. Nesse
contexto, será inadequado dizer ‘eu vi’, como um personagem que encontrou um
cadáver ao abrir a porta de casa: ‘eu” passa a não fazer sentido. Nem cabe
dirigir-se ao consumidor da informação
como ‘vocês’ ou ‘os senhores’: esta forma de tratamento pressupõe outro tipo de
relação com o público.
“O uso da terceira pessoa é obrigatório, a tal ponto que,
modernamente, o jornal, emissora ou agência, quando envolvido no acontecimento
que está expondo, cham,a a si próprio pelo nome’.
Por definição, a retórica da notícia é referencial. Assim,
podemos dizer que comove, motiva a revolta ou o conformismo, agride ou
gratifica etc. Como os repórteres podem se descuidar nesses aspectos, os
veículos jornalísticos criaram um mecanismo de poder que é o gatekeeper,
aquele que decide o que vai ser publicado e como.
Vale ressaltar que todo fato é neutro. O que tira a neutralidade
e a formação de cada um: jornalista ou receptor.
Um ponto importante é a respeito da veracidade de uma informação.
Do ponto de vista técnico, Lage diz que “a notícia não é avaliada por seu
conteúdo moral, ético ou político; o que importa é se de fato aconteceu aquilo
ou, no caso de ua entrevista, se o entrevistado disse realmente aquilo. Se bem
que os jornalistas não estejam imunes (ninguém está) às contingências
históricas, aos compromissos culturais ou de classe, não há, em tese, notícias
reacionárias ou progressistas, edificantes ou indecentes.”
Para receptores, existem formas de informação para que
acreditem ser verdadeira. Assim, não se deve escrever alguns manifestantes mas,
sempre que possível, o número exato: 10, 12 ou 20. Não de diz que uma cidade
fica próxima a outra, mas a que distância fica, ou o tempo que leva para
percorrer a distância. Pelo mesmo motivo, devemos usar termos comparativos. Por
exemplo: o que é um prédio alto ? O que é uma área grande ? Quando falarmos da
capacidade de uma usina hidrelétrica, devemos dizer quantas casas ela tem
capacidade de fornecer energia.
Lead
O lead é o primeiro parágrafo
da notícia em jornalismo impresso, embora possa haver outros leads em
seu corpo. Corresponde à primeira proposição de uma notícia radiofônica, ao
texto lido pelo apresentador ou à cabeça do repórter no início de uma notícia
em televisão.
O lead é o relato do fato principal de uma
série, o que é mais importante ou mais interessante. Em sua forma clássica, e impressa, é uma
proposição completa no sentido aristotélico, segundo Lage; ou seja, contém:
a) o sujeito, um sintagma nominal
que pode conter um substantivo, acompanhado ou não de artigo, adjetivo, locução
adjetiva, oração adjetiva; ou ainda uma locução substantiva, uma oração
integrante;
b) o predicado, ou seja, o sintagma
verbal, acompanhado ou não de seu complemento, um objeto direto, ou indireto;
c) as circunstâncias, ou sintagmas
circunstanciais de tempo, lugar, modo/ instrumento, causa/consequência.
No parágrafo seguinte, ou seguintes,
ao lead escreve-se os detalhes e acrescenta-se informações acerca da
ação verbal em si, os sintagmas nominais, os circunstanciais ou quaisquer de
seus componentes é chamado de documentação.
O lead informa quem fez o
que, a quem, quando, onde, como, por que
e para quê. A documentação consiste em proposições adicionais sobre cada
um desses termos.
Restrições
verbais no lead